23 de fev de 2011

De Violências contra a Mulher e do "Ideal de Estupro"

Cito o post da Clarissa de Baumont no Blog Lamento della Ninfa,sobre esse video..

''Por que tudo foi gravado? Os senhores que cometiam essa violência tinham conhecimento do artigo 249 do CPP e de que não podiam agir por tais meios, ou na corregedoria da polícia trabalha quem desconhece a legislação?  

Será que assumiriam, então, o risco de gravar um vídeo dessa mulher sendo despida se não tivessem "certeza" de que encontrariam o dinheiro?

Qual o valor de um vídeo, uma produção, como prova? Vale o quê?

Como o mágico encontra sempre o passarinho que já tinha para o público, eis que as provas se materializam compondo o que se vê: um espetáculo.

O grotesco da situação evidencia conceitos que pautam as relações sociais.  A cena de nudez da mulher ocorre em função da "masculinidade dos homens". Um homem não pode exigir (querer, desejar, demandar) a nudez de outro homem e, portanto, se fosse um homem ali não haveria nada disso (tais ideias sobre esse vídeo são trabalhadas com maestria no texto de Salo de Carvalho, De Violências contra a Mulher e do "Ideal de Estupro").

Muitas pessoas proclamam que não existem mais diferenças violentas entre homens e mulheres, que a igualdade de gênero aumenta e a liberdade feminina é evidente. É uma ilusão.

Ilusão porque o aumento do papel da mulher no mercado de trabalho se deve mais à organização econômica que lhe necessita para que sobreviva, cresça, movimente-se do modo esperado. E porque a liberdade sexual da mulher ainda se legitima de acordo com a ideia de que é melhor ao homem que assim seja, para se falar das duas coisas mais proclamadas como argumentos da igualdade de gênero.  

Não é preciso ir atrás das burkas procurar a opressão feminina, tão mascarada no ocidente. Permanece o ideal de existência feminina como algo que precisa servir ao masculino. Se não serve, é uma existência vulgar, ou inútil, ou desprezível, ou todas essas coisas. A mulher tem um sentido geral antes de instrumento à satisfação do homem que de algo que exista por si mesmo.

O que é preciso antes de tudo é que as mulheres não busquem ideal algum que não o da mulher livre, que independe do referencial da masculinidade. Mulher como ser humano e não como oposição ao homem. Aos homens o mesmo, porque a opressão da mulher é ao mesmo tempo a do homem, na sua outra face.

Ainda que houvesse dinheiro escondido com aquela mulher, o que aconteceu continuaria sendo absurdo. Afinal de contas, a barbárie de se jogar homens aos leões não se redime pelo fato de se jogar criminosos aos leões. Ao contrário, é inclusive pior, porque se forjam suas justificativas como se houvesse possibilidade de justificar. ''